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quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Para acabar com a impunidade em crimes de gênero" - Entrevista com Nalu Faria pela Revista Fórum em Julho 2010

De acordo com Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres, o sistema judiciário brasileiro apresenta falhas graves em relação à plena execução da Lei Maria da Penha. Para ela, além dos entraves jurídicos, uma das maiores dificuldades para combater a violência de gênero é lutar contra a sua naturalização.
Apesar de ter sido sancionada em 2006 pelo presidente da República, a Lei Maria da Penha ainda não consegue assegurar proteção plena às mulheres vítimas de violência. De acordo com a Unifem (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher), a nossa legislação de proteção ao sexo feminino está entre as três melhores do mundo, mas encontra obstáculos para ser executada. “Temos uma formação social que reforça o machismo, ainda vemos casos de mulheres que procuram as autoridades para denunciar e são tratadas como culpadas, como se elas tivessem ocasionado essas agressões”, argumenta Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres.
Os casos de Eliza Samudio e Mércia Nakashima ganharam destaque por apresentarem elementos de forte potencial midiático. Mas, infelizmente, eles não são exceção na realidade brasileira. “Qualquer um pode procurar pelos homens que foram presos por matarem mulheres, e não vai achar nenhum. Eles podem até terem sido condenados, mas presos não”, sustenta Nalu. Confira a íntegra da entrevista com a ativista abaixo.


De acordo com dados da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), as denúncias recebidas pela Central de Atendimento à Mulher aumentaram 49% entre 2008 e 2009. Como você enxerga esse aumento, apesar da promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006?


Nalu Faria - Hoje a Lei Maria da Penha é muito conhecida e a Central de Atendimento à Mulher está mais atuante. Antes (da promulgação da lei) os casos de violência contra as mulheres eram mal notificados, mas agora isso está mudando porque as mulheres têm conhecimento dos seus direitos e se sentem mais encorajadas a denunciar. Sempre que há um grande número de denúncias de violência contra o sexo feminino vem a pergunta: será que aumentou a violência ou aumentaram as denúncias? Então, o aumento das denúncias quer dizer também que as mulheres estão mais informadas e conscientes dos seus direitos, pois sabem que a lei deve defendê-las.


Outro dia vi na televisão, num desses programas policiais, um policial perguntando a um homem, que havia batido em sua esposa, se ele conhecia a Lei Maria da Penha. Isso demonstra que as autoridades conhecem a lei e a estão fazendo cumprir. Mesmo assim, ainda existe um trabalho de debate e reflexão com as autoridades sobre isso, juntamente com a sociedade.


O Estado está preparado para aplicar a Lei Maria da Penha e a legislação de amparo à mulher?


Nalu – Completamente preparado, não. O Brasil é muito grande, e isso dificulta a disseminação de informações. Estaríamos preparados se o debate estivesse realmente implantado em todo país. Temos uma formação social que reforça o machismo, ainda vemos casos de mulheres que procuram as autoridades para denunciar e são tratadas como culpadas, como se elas tivessem ocasionado essas agressões. Sei de casos de mulheres irem à delegacia e ouvirem dos policias: "você deve ter feito alguma coisa pra ter apanhado".


Temos que implantar o debate em todos os níveis da sociedade e do governo. No Poder Judiciário, por exemplo, os erros são visíveis. Muitas mulheres são assassinadas mesmo após pedirem proteção das autoridades. Por não reconhecerem a situação de desigualdade de gênero que existe no Brasil, muitos de nossos juízes questionam até mesmo a constitucionalidade da Lei Maria da Penha.


Em relação ao machismo, como se pode trabalhar e mudar a mentalidade de homens que acreditam que a violência contra a mulher é algo normal?


Nalu - No que se refere ao poder do Estado, temos que acabar com a impunidade existente em relação a crimes contra mulheres no Brasil. Infelizmente, ela ainda é muito grande. Qualquer um pode procurar pelos homens que foram presos por matarem mulheres, e não vai achar nenhum. Eles podem até terem sido condenados, mas presos não. Então precisamos de medidas que rompam com a imunidade e criminalizem de vez este tipo de violência.


Outro ponto é trabalhar no âmbito da prevenção. A violência não acontece de uma hora pra outra, ela passa por um processo de agravamento. Quando alguém sabe que a mulher está apanhando muito do marido, a violência não começou com esse espancamento. Ela começa na desqualificação da pessoa, até que um dia chega à agressão física. No caso do goleiro Bruno (do Flamengo), por exemplo, você vai ver que há um histórico de violência contra algumas mulheres que conheceu.
As pesquisas confirmam: a cada 15 segundos uma mulher é assassinada no Brasil. Isso é algo inaceitável. E há uma naturalização tão grande da violência que as pessoas convivem com isso e não sabem como lidar. O debate deve desconstruir essa naturalização e despertar a consciência de que a violência é algo inaceitável.

De 2006 pra cá, a partir da aprovação da Lei, quais os maiores avanços no combate à violência contra a mulher que o Brasil presenciou? Em que aspectos ainda precisamos melhorar?


Nalu - Um grande avanço é o aumento no número de denúncias. Com isso temos mais possibilidades de lidar com o problema e saber o que realmente está acontecendo. Outro bom sinal é o incremento das políticas públicas de atenção às mulheres. Isso é sinal de que para combater a violência tem-se que acabar com a desigualdade de gênero.


A autonomia econômica das mulheres é outro ponto importante a ser trabalhado. Independência econômica perante o parceiro não é condição suficiente para que a mulher esteja livre da violência. Dados mostram que muitas mulheres falam que não se separam por conta da situação financeira, vinculada ao parceiro. O importante é que a mulher tenha uma autonomia pessoal e acredite que possa viver por contra própria. Essa questão é muito difícil de ser trabalhada, pois envolve um elemento subjetivo, enraizado em nossa cultura.
Ainda precisamos nos antecipar ao tema da violência. Trabalhar a questão da autonomia pessoal é conscientizar as mulheres de que elas não podem ficar em uma posição submissa ao homem, onde precisam ceder sempre para agradá-lo, como se fosse a condição para uma relação harmoniosa. São essas atitudes de controle que terminam em violência.

Em relação à exposição midiática do caso do goleiro Bruno, este fato pode fortalecer a luta em favor da erradicação da violência contra as mulheres?


Nalu - Isso vai depender do debate e da disputa que fizermos em relação a isso. Nesse caso, há elementos jurídicos que possibilitam a retomada de algumas decisões. Por exemplo, a demissão do Bruno, que pode não acontecer mais. Ou até mesmo o advogado dele, cogitando que a Eliza possa estar viva e esteja fazendo isso para se vingar dele. Se conseguirmos que as acusações sejam provadas, vira um caso exemplar positivamente. O Bruno confiava muito na impunidade, ele não tinha medo de ser preso. Temos que ter uma solução firme neste caso.

Fonte: Aads - Ações Afirmativas em Direitos e Saúde/Ipas Brasil

sábado, 12 de março de 2011

Intervenção cirúrgica

Para ex-modelo somali, Facebook é instrumento essencial no combate à circuncisão feminina
12 de março de 2011 | 10h 29

A somali Waris Dirie é muito mais conhecida por ter sofrido o violento ritual de mutilação genital feminina aos 5 anos do que por ter se submetido ao lamentável, mas indolor, papel de Bond girl na encarnação do agente secreto britânico vivida pelo ator Timothy Dalton.

Dirie, autora do best seller internacional Flor do Deserto, de 1998, tornou a violência rotineira contra mulheres da África e do Oriente Médio ainda mais conhecida quando suas memórias foram transportadas para o cinema. Flor do Deserto, o filme, com uma outra supermodel, a etíope Liya Kebede no papel de Waris Dirie, recria a dolorosa cena que Dirie quer gravar na memória coletiva para poupar outras gerações.

Descoberta em Londres aos 18 anos pelo fotógrafo Terence Donovan enquanto varria a lanchonete de fast food onde trabalhava, Dirie havia fugido de sua família de nômades aos 13 anos para escapar de um casamento forçado. Caminhou até a capital, Mogadiscio, e foi despachada num avião para Londres para trabalhar como doméstica para a família do embaixador da Somália.

Ela foi uma das mais solicitadas modelos negras da década de 90. Hoje, aos 45 anos, não desfila mais e vive em Viena, com cidadania austríaca, onde opera sua fundação Flor do Deserto. Dirie viajou o mundo como embaixadora da ONU para denunciar a mutilação genital feminina. Ela falou ao Estado por e-mail, de Viena.

Mulheres são as mais afetadas pela guerra, mas menos de 3% daqueles que assinam tratados de paz desde 1992 são mulheres. Como elas podem ser incluídas nos processos de paz?

O que você descreve é bastante lógico. Na maioria dos países, as mulheres dificilmente estão envolvidas em qualquer processo político, incluindo os de guerra. Se estivessem, muitos conflitos ao redor do mundo já estariam solucionados. Mulheres compõem metade de qualquer sociedade. O sistema político que ignora esse dado está fadado a enfrentar problemas cedo ou tarde. Em relação ao envolvimento de mulheres em processos de paz, eu acho que ele virá naturalmente, uma vez que mulheres sejam incluídas em todas das decisões políticas e sociais de um país.

Um livro recente do antropólogo Aud Talle diz que mulheres somalis morando na Noruega têm mudado sua atitude em relação à circuncisão feminina e agora se opõem à prática. Qual a importância das sociedades e governos ocidentais em pressionar as comunidades de imigrantes para pôr fim a essa prática? Qual a sua visão sobre a recente controvérsia na França em relação ao uso da burca?

O exemplo de mulheres somalis na Noruega demonstra o seguinte: se as mulheres imigrantes vivem em uma sociedade que mostra ativamente os papéis que as mulheres podem desempenhar na sociedade, elas vão adotar ao menos em parte essas atitudes no cotidiano. Acho que esse é um bom estímulo também para as mulheres ocidentais darem um bom exemplo e mostrar o que é ser uma mulher independente para mulheres vindas de um contexto cultural diferente.

Todas as meninas submetidas à mutilação genital também são forçadas a aguentar casamentos arranjados?

Nem todas, mas é muito comum. Casamentos arranjados, que são basicamente a venda da própria filha para outra família ou homem, e a mutilação genital são, na essência, sintomas diferentes da mesma doença. E essa doença é olhar para mulheres e tratá-las como se fossem objetos, não seres humanos.

Pessoas sempre dizem que mais mulheres no poder trarão mais justiça e igualdade. Contudo, num país como Bangladesh, onde há uma primeira-ministra e a líder da oposição é uma mulher, mulheres ainda são atacadas com ácido nas ruas, geralmente por recusarem casamentos arranjados ou investidas sexuais. Como explicar essas discrepâncias numa sociedade?

É como colocar uma mulher no topo de uma empresa dominada por homens e dirigida por uma cultura do "macho". Ela não vai fazer diferença, a menos que a cultura dentro da empresa mude também. O mesmo é verdadeiro para sociedades. São as sociedades que têm de mudar, não o sexo das pessoas no topo.

No livro The Honor Code, o filósofo ganense-americano Kwame Appiah disse que algumas práticas sociais, como pés enfaixados e atrofiados e a escravidão, chegaram ao fim em parte porque chega uma hora em que as pessoas que seguiam uma velha ordem são expostas ao ridículo e à vergonha. Você acredita que esse possa ser o caso da violência de cunho religioso contra mulheres?

Acho que a violência contra as mulheres nunca é baseada na religião ou na cultura, embora muitas vezes seja justificada dessa forma. A violência contra as mulheres é baseada no medo do poder e da força da mulher. Pense nisso: os homens têm dominado mulheres por tanto tempo... Você pode compará-los a um ditador, que também teme perder poder, dinheiro e influência se permitir aos presumivelmente mais fracos ter voz.

A liberdade de reprodução sofreu um revés nos Estados Unidos recentemente com iniciativas como o fim do financiamento da Planned Parenthood. Você acha que esses contratempos podem afetar a liberdade reprodutiva em países que dependam muito de ajuda internacional?

Espero que não. O controle de natalidade é extremamente importante em países em desenvolvimento, especialmente na África Subsaariana. Vários estudos têm demonstrado a forte relação entre o acesso ao controle de natalidade e a educação sexual e a saúde da mulher em geral. Além disso, o HIV continua a ser uma questão extremamente importante no mundo em desenvolvimento.

Você acredita que a rede social, na medida em que contribui para estimular mudanças políticas na África e Oriente Médio, também possa ajudar a promover uma mudança geracional que vá beneficiar as jovens?

A rede social tem um enorme potencial para promover mudanças, especialmente em regimes antigos e restritivos, nos quais as pessoas não têm possibilidade de expressar abertamente suas opiniões ou usar os meios de comunicação tradicionais para promover suas ideias. Minha fundação (www.desertflowerfoundation.org) usa com sucesso a rede social para alcançar os jovens e promover uma mudança na percepção sobre a mutilação genital, divulgar informações e, claro, para interagir uns com os outros. Leio todos os comentários postados no Facebook e é muito bom ver tantas pessoas engajadas na luta contra a mutilação genital feminina e para promover os direitos das mulheres.


Fonte: Estadão

terça-feira, 20 de julho de 2010

"Matam-se mulheres feito moscas no Brasil"

REVISTA ISTO É
COMPORTAMENTO
JUDICIÁRIO
MINISTÉRIO PÚBLICO



Especialista em crimes contra a mulher, a promotora de Justiça Luiza Eluf diz que os juízes têm de mandar prender agressores para evitar mortes anunciadas, como a de Eliza Samudio

Daniela Mendes

SEM FRONTEIRAS

Segundo Luiza Eluf, o machismo não tem classe social

Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, segundo o Mapa da Violência 2010, estudo feito pelo Instituto Sangari com base nos dados do Sistema Único de Saúde. A maioria é vítima de ex-namorados, maridos, companheiros. “Enquanto o machismo não acabar, as mulheres continuarão morrendo”, diz a promotora de Justiça Luiza Nagib Eluf, especialista em crimes contra a mulher e homicídios passionais. Com cinco livros publicados, entre eles o best seller “A Paixão no Banco dos Réus”, no qual analisa os principais crimes passionais que ocorreram no País, Luiza diz que as leis atuais são boas, mas há ineficiência da polícia e do Judiciário quando a mulher denuncia a agressão ao poder público. “Só a prisão do agressor pode salvar a vida da mulher inocente”, diz ela, há 31 anos no Ministério Público, quase todos na vara criminal.

ISTOÉ – Eliza Samudio deu queixa contra Bruno à polícia, as agressões dele foram comprovadas e mesmo assim, tudo indica, ela morreu numa emboscada dele. Por que o Estado não a protegeu?

Luiza Nagib Eluf – Essa é a grande questão. Nós temos leis boas, como a lei Maria da Penha, a Constituição, que proíbe a discriminação contra as mulheres. Temos uma lei que determina a criação dos juizados especiais de violência doméstica. Mas a prática da Justiça e da polícia está ruim. Os advogados e o Ministério Público estão cumprindo bem o seu papel. Falta a polícia se convencer de que precisa ser mais rápida nas questões ligadas à proteção da mulher e falta ação do Judiciário, que por vezes fica numa posição de lavar as mãos para ver o que vai acontecer. A lei permite que se prenda o sujeito que ameaça a vida da mulher. Mas os juízes não mandam prender.

ISTOÉ – A proteção é falha?

Luiza – A Eliza filmou depoimento na frente da delegacia dizendo que deu queixa, precisava de proteção e não conseguiu. A cabeleireira Maria Islaine de Moraes, de Belo Horizonte, foi oito vezes à delegacia, recebeu medida protetiva decretada pelo juiz – o ex-marido não poderia se aproximar dela – e foi assassinada por ele em janeiro. Adianta decretar a medida e não fiscalizar o cumprimento dela? É piada. Ninguém protegeu a moça. Ela colocou câmeras no salão para comprovar as ameaças e o assassinato dela foi filmado. O sujeito invadiu o salão sem dificuldade e deu seis tiros nela. A medida protetiva não pode ser de brincadeira, o juiz tem que designar um policial para garantir o cumprimento dela.

ISTOÉ – Mulheres que se relacionaram com Bruno contam que ele e os amigos as surravam em festas e orgias. O que explica esse tipo de comportamento?

Luiza – Para eles as mulheres que estão na fatia decaída da sociedade são lixo. Eles, que tanto as procuram, têm ódio e desprezo por elas. Vamos continuar dividindo a sociedade entre as mulheres honestas e as decaídas? Essa divisão prejudica todas as mulheres, tem de acabar. Como? Trazendo as prostitutas para o lado bom da sociedade. É preciso enfrentar e dignificar a prostituição, porque ela não vai acabar.

“Pimenta Neves não sabia que não podia matar a Sandra Gomide?

Ele fez isso porque apanhou dos pais? Não, fez porque é machista”

ISTOÉ – Eliza teria morrido com extrema crueldade. Há uma escalada da violência?

Luiza – Os requintes de crueldade são cada vez piores. No caso de Eliza, aparentemente praticou-se violência de gênero, mas os métodos de execução do homicídio foram os do narcotráfico, de matar aos pouquinhos, mediante tortura. Analisei um caso do interior de São Paulo em que os ladrões roubaram o carro de um senhor e o amarraram em uma árvore num local ermo. Ele fez as necessidades fisiológicas ali e foi comido por abelhas, formigas e outros bichos. Ele estava vivo enquanto era comido, isso foi constatado pelo laudo pericial.

ISTOÉ – Corre em Santa Catarina um inquérito policial que investiga o estupro de uma menina de 13 anos por dois adolescentes de 14, um filho de um empresário importante e outro de um delegado. Como explicar isso?

Luiza – É o machismo, a cultura do desrespeito à mulher. É o ponto extremo que leva ao estupro, à violência.

ISTOÉ – Neste caso, o delegado Nivaldo Rodrigues, diretor da polícia civil de Florianópolis, admite que houve o ato, mas diz não poder falar se foi na marra. O que acha disso?

Luiza – Com violência, não existe vontade, com 13 ou 80 anos. E a nossa lei penal estabelece que relação sexual com menor de 14 anos é um crime chamado estupro de vulnerável. O delegado não tem de fazer ponderações sobre se ela quis ou não quis, é estupro.

ISTOÉ – Segundo o Mapa da Violência 2010, uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, na maioria das vezes por parentes.

Luiza – O espaço público é perigoso para os homens, que são 90% das pessoas assassinadas na rua. Mas o espaço doméstico é perigosíssimo para a mulher. Ela é atacada em casa. É vítima do marido, do pai, do irmão, do padrasto. São os homens que vivem em volta dela que batem, espancam, estupram e matam. O espantoso é que não são tomadas medidas imediatas para evitar mortes anunciadas, como a da Eliza.

ISTOÉ – Que medidas podem ser tomadas?

Luiza – O Poder Judiciário precisa se convencer do perigo real que é a violência doméstica. São os juízes que decidem sobre a prisão ou não do potencial agressor e há um certo constrangimento de expedir mandados de prisão. São tantos os exemplos que terminaram em morte que, diante de uma queixa, é preciso mandar prender o agressor imediatamente. Temos de ter claro quem é agressor e quem é vítima, pois nossa sociedade confunde os papéis. Não venha dizer que o (jornalista) Pimenta Neves, coitadinho, enlouqueceu com aquele amor pela (jornalista, assassinada por ele em 2000) Sandra Gomide. Ele que pague por sua loucura. Também tivemos o caso da jovem Eloá Pimentel em 2008. Esperaram cinco dias o rapaz (Lindemberg Alves) matar a moça. E quiseram culpar a família dela dizendo que não deveriam ter permitido que ela, aos 12 anos, começasse a namorar. Quem tem culpa é o Lindemberg, que se achava dono dela.

ISTOÉ – Qual o peso da classe social do agressor na violência contra a mulher?

Luiza – Não é uma questão econômica, é cultural. É um padrão de comportamento. Em todas as classes sociais os homens batem nas mulheres. O Pimenta não sabia que não podia matar a Sandra Gomide? Ele fez isso porque passava fome quando era pequeno ou porque apanhou dos pais? Não, fez isso porque é machista. O Lindemberg é de uma classe social mais baixa e matou a Eloá pelo mesmo motivo: ambos achavam que eram donos delas.

ISTOÉ – Eles não temem a punição?

Luiza – Não, porque não veem o Estado funcionar. Homicida passional não se incomoda nem de deixar os próprios filhos na orfandade. No Brasil, matam-se mulheres feito moscas.

ISTOÉ – O assassinato da advogada Mércia Nakashima é passional?

Luíza – Com certeza, é tipicamente passional. Estudei 100 crimes passionais para colocar 15 no meu livro. Todos foram premeditados, como esse parece ter sido. (O principal suspeito da morte da advogada, cujo corpo foi jogado numa represa em São Paulo, é o ex-namorado dela, Mizael Bispo de Souza.)

ISTOÉ – Em países menos machistas há menos violência contra a mulher?

Luiza – Sim. Veja os países nórdicos onde as mulheres estão nos postos de direção, quase equiparadas aos homens no mundo profissional. Isso faz diferença porque é questão de respeito. É a maneira como o homem encara a mulher e como ela se vê diante dele

Fonte: Revista ISTO É via Blog Segurança com Cidadania e Dignidade

terça-feira, 25 de maio de 2010

ESTUDO REVELA QUE PM's FEMININAS SÃO MENOS VIOLENTAS QUE OS HOMENS



PMs femininas são menos violentas que os homens



Estudo da Faculdade de Direito da USP mostra que mulheres se envolvem em menos crimes, mas representam 10% da corporação

Pedro Marcondes de Moura, JORNAL DA TARDE - O Estado de S.Paulo

Números da Polícia Militar e um estudo da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) apontam que as PMs femininas são menos violentas que seus colegas homens. Mesmo assim, a corporação só reserva 10% das vagas para as mulheres, que ficam com as tarefas mais burocráticas. Atualmente, o contingente da Polícia Militar paulista é formado por 9 mil mulheres e 84 mil homens.


O estudo Mulheres na Polícia Militar do Estado de São Paulo: a difícil mudança de paradigma, que demorou três anos para ser concluído, mostra ainda que as oficiais femininas são tão eficientes no policiamento quanto os homens. Mariana Barros Barreira, a autora do estudo, pesquisou estatísticas de forças policiais dos Estados Unidos e países da Europa. Constatou em todas que havia menos agressividade por parte das mulheres.

De acordo com dados da Polícia Militar paulista, há cinco vezes mais oficiais homens presos que PMs mulheres. A cada 2.250 policiais militares homens, mais de cinco estão detidos no presídio da corporação, o Romão Gomes, na zona norte. Já para o mesmo número de PMs femininas, há apenas uma detida.

O comando da corporação alega que os números de presos mostram que "as mulheres são empregadas em situações menos graves, como negociadoras, administração ou ronda escolar". Nos presos recaem acusações como roubos, homicídios e violar regras internas.

Sobre o envolvimento de policiais femininas de São Paulo em casos recentes de agressão, a autora do estudo, Mariana Barros, explica: "Por serem minoria, algumas acabam adotando a violência como forma de reconhecimento entre os colegas ". Uma tenente está entre os presos acusados de espancar e matar um motoboy em abril, no quartel da Casa Verde, zona norte.

Hoje, enquanto as mulheres são 10% dos componentes da PM, na Polícia Civil elas são 30%. "A hegemonia de homens é uma opção política da PM, que ignora a proporção entre os sexos ", diz a pesquisadora. Denis Mizne, diretor executivo do Instituto Sou da Paz, considera que o aumento da presença de mulheres melhoraria a PM. E vai além. "É preciso que elas também ocupem cargos importantes dentro da Polícia Militar", diz.

Carreiras. Pelo menos no curto prazo, a predominância masculina na PM não deve mudar. Homens e mulheres, desde o início, têm carreiras distintas. "Se olharmos os cargos de chefia, veremos que existe um funil", afirma Mariana Barros.

Entre os 52 batalhões da Grande SP, só um tem comando feminino: o 5.º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M), na Vila Pedrosa, zona norte da capital, chefiado pela tenente-coronel Edneide Lima Nóbrega.

A pesquisadora critica o fato de o cargo máximo da PM paulista, o de comandante-geral, não poder ser ocupado por uma mulher. A escolha é feita pelo governador do Estado por meio de uma lista em que só podem ser indicados os coronéis homens da ativa. Em outros Estados, como Rio Grande do Sul e Minas Gerais, a situação é diferente. As carreiras dentro dessas PMs são unificadas. Para Mariana Barros, isto comprova um preconceito de gênero em São Paulo.

Para o coronel Luiz Eduardo Pesce de Arruda, comandante do Centro de Altos Estudos de Segurança (Caes), o papel feminino cresceu na instituição. "Nós temos quatro mulheres entre os quadros mais altos", diz. Segundo ele, São Paulo foi o primeiro Estado do País a contar com mulheres no policiamento. A unificação entre os quadros de oficiais deve acabar com as diferenças. "As mudanças exigem análise e estudo."

Entrevista com Maria Aparecida Lucena, sargento da Polícia Militar


Qual a diferença entre o policiamento feminino e o masculino?

A mulher é menos corrupta e menos agressiva. Nós somos mais compreensivas do que os homens.

Existe discriminação contra mulheres na corporação?

Nos meus 27 anos de Polícia Militar, nunca fui vítima (de discriminação), graças a Deus. É uma questão de postura, de saber se impor. Depende de você.

O fato de uma mulher não poder se tornar comandante-geral não revela preconceito da Polícia Militar?

Tem mulheres competentes. Nós temos coronéis e comandantes ótimas.
Em outros Estados, as mulheres podem chegar ao cargo de comandante-geral.
Eu creio que a mulher está conquistando o seu espaço na Polícia Militar. Isso deve mudar com o tempo.

Durante abordagens nas ruas, já se sentiu vítima de preconceito por parte da população?

Eu nunca tive grandes problemas. Às vezes, tem algumas pessoas folgadas. Mas a maioria respeita a farda, independente do sexo.